11.11.09

GANHAR E PERDER


Reparamos na fotografia da foto e vemos um homem bonito, sorridente, aparentemente feliz. Não sei falar do suicídio. Nem acredito que a única questão filosófica seja o suicídio porque não acredito que "questão filosófica" seja uma questão filosófica. Acredito, porém, no desespero, na derrota e em Deus. No prato da balança, se o último não ganha, nós perdemos sempre.

10.11.09

A QUATRO MÃOS

Gabriela Canavilhas - que nos garantiu que o chefe do governo está muito interessado na "cultura" e que o OE ia reflectir isso mesmo - respondeu a três perguntas do jornal i. Eles perguntam-lhe que "novidades" traz o OE à cultura e ela responde que "recusa os discursos miserabilistas" porque o que é preciso "é arregaçar as mangas e transformar o pouco em muito para termos um novo olhar sobre a cultura." E repete, não fosse dar-se o caso de nos termos esquecido: "é preciso transformar o pouco em muito." Isto é uma mera derivação do "fazer mais com menos" que tantas nulas alegrias trouxe ao seu irrelevante antecessor Pinto Ribeiro. Como num mau concerto para piano a quatro mãos.

SUCATISMO


O excelentíssimo público quer "sangue". Ou, para falar num assunto contemporâneo, lixo, sucata. Sucede que para isso tem dois comentadores privilegiados, por sinal ambos conselheiros. Um é PGR, o outro é presidente do STJ. Escapa-me aqui um terceiro conselheiro, Acácio, o eminente jurista Pitta. Falar recorrentemente de processos em curso - cedendo ao tropismo mediático - é uma maneira subtil de dar cabo deles. É por isso que estes extraordinários processos - feitos de "polvos", mariscos e carapaus do gato - acabam invariavelmente com um ou dois "bibis" imolados no altar das formalidades jurídicas. Para quê, pois, derivar desta evidência?

SE FIZEREM FAVOR

Para além de gostar deles, os poemas que de vez em quando aqui coloco também de destinam ao excelentíssimo público. É como que um teste. E a conclusão (pobre) é que poemas são coisas que não interessam nada ao excelentíssimo público. Até bloggers que têm reputação de poetas só escrevem panfletos políticos em forma de posts. Isto diz muito da nossa embrutecida condição. Escravos dos poderes mediáticos e de pequeninos titãs pseudo-democráticos, já nem um poema (e o que antecede é uma pequena obra de arte literária para quem ainda não percebeu) lemos. Um pouco mais de qualidade de vida, se fizerem favor.

UM POEMA


Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question...
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
(They will say: "How his hair is growing thin!")
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
(They will say: "But how his arms and legs are thin!")
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all -
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
(But in the lamplight, downed with light brown hair!)
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows?...

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep ... tired ... or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet - and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all" -
If one, settling a pillow by her head,
Should say: "That is not what I meant at all."
That is not it, at all.

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.

I grow old ... I grow old...
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.


T. S. Eliot, The Love Song of J. Alfred Prufrock

9.11.09

A «SITUAÇÃO»

«Governou quatro anos e meio com maioria absoluta, ganhou as últimas eleições Legislativas e aí está de novo à frente de um Executivo que tem por missão principal preparar novas eleições para o partido do senhor presidente relativo do Conselho voltar a ter maioria absoluta.»

António Ribeiro Ferreira, CM


UM ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Isto é uma reflexão oportuna.

DO ESLAVISMO


Existe uma melancolia eslava? Existe mas também existe a música de Borodin, uma maneira original de apresentar livros como os da foto, do Luís Naves, uma pessoa decente que conheço.

SÃO ROSAS, SENHOR

Isto é tudo muito divertido. Uma televisão "apurou" que a PJ apurou - com fotos ou facebook, não se sabe bem - que o dr. Vara se encontrou com o ex-sucateiro Godinho num parque de estacionamento, de carro para carro. Godinho entregou um saco com qualquer coisa a Vara, Vara olhou para dentro do saco, sorriu e foi-se embora. Chamam a isto uma notícia.

PATÉTICO

Que pena que não tenham sobrado uns quantos tijolos resolutos para atirar à cabeça dos muros ambulantes portugueses que tão abundantemente dissertaram sobre a queda do muro de Berlim. Mais um bocado e tinham sido eles a dar cabo da coisa. Patético.

8.11.09

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA


O CDS vai queixar-se ao prof. Azeredo, o da ERC, por não ter sido convidado pela D. Fátima - uma santa padroeira da propaganda - para o inefável Prós dedicado ao programa do governo. Sucede que, conforme sugerido pelo prof. Marcelo, o CDS prepara-se para reeditar os "encontros do Tivoli" do dr. Manuel Monteiro que viabilizaram coisas relevantes para o bonzinho e minoritário Guterres no idos de noventa e seis ou sete. A criatura, Monteiro, não brotou do nada apesar do nada em que se tornou. E, a confirmar-se a profecia, o PS depois conta ao CDS como é que foi o que dispensa a presença na RTP. A retórica do dr. Portas dura sempre o tempo de uma vichyssoise.

A CORRECÇÃO TAMBÉM NÃO GOSTAVA DELE

GRANDES VOZES



Verdi, Don Carlo. Ferruccio Furlanetto.Teatro alla Scala, Milão. Dezembro de 2008

A PROVEDORIA GERAL DA REPÚBLICA

Sensivelmente os mesmos caniches do post anterior - que viram no Público pós- Fernandes uma espécie de novo testamento da redacção única em vigor - não se babaram da mesma maneira com a manchete acerca de certidões do processo sucateiro. Parece que estiveram a marinar quatro estratégicos meses, tantos quantos durou o "ciclo eleitoral" que tantas venturas trouxe aos donos dos referidos caniches. Pinto Monteiro e a sua tropa existem para prover aos desvalidos. É essa a origem histórica da coisa "ministério público". Nunca desiludem.

SALIVAÇÕES

Os glosadores socráticos da blogosfera tiveram direito a um corrimento medieval propiciado por Vasco Pulido Valente. Na crónica do Público, VPV comenta uma sondagem do camarada Oliveira Costa que retira popularidade a Cavaco. Atribui, resumidamente, a coisa a erros e à presunção do PR. Os caniches arrebitaram logo as orelhinhas com este diagnóstico. Para esta gente toda, em geral amante de Soares, Cavaco é um intruso mal amanhado e incipiente que estraga o curso normal da política à portuguesa, aquela que gravita na órbita do PS, das televisões e de três ou quatro colunas de jornais. Cavaco foi infeliz? Infelicíssimo. Daí decorre que qualquer estátua do comendador das esquerdas o vai bater numa eventual reeleição? Não decorre. É quanto basta.

NATUREZA

«Temos a consistência das alforrecas.»

BARATAS GUERREIRAS


Enquanto vejo e ouço a Força do Destino de Verdi - que título promissor! - passo os olhos pelo Actual do Expresso, secção livros e subsecção não ficção. Normalmente estas secções dos jornais não se destinam a levar os putativos leitores a ler os livros de que ali se fala. Não. Os literólogos de serviço esmeram-se em asfixiar os livros colocados à sua presunçosa consideração e falam sobretudo deles, literólogos (uma deflexão dos politólogos da televisão) e geralmente dos amigos deles que ocorreram em livros. António Guerreiro é um excelente exemplar desta mistificação. Pegou em dois livros de poesia - de António Osório e de Adília Lopes - e vá de fazer a "poesia" dele com eles. Ora reparem. Adília cria «identidades, representações, figuras que são a cifra de um Eu que constrói uma sumptuosa comédia autobiográfica», por exemplo, quando escreve "os meus gatos/gostam de brincar/com as minhas baratas." Na pobre cabeça guerreira há gatos que brincam com baratas e esses gatos e essas baratas são da Adília, não são do poema. Por isso lhes chama «versos desarmantes e deceptivos» como poderia ter dito que está a chover. Depois, na Adília, «tudo se passa à superfície, mas uma superfície de onde se avista o abismo.» É a chuva de volta. Há um título ("um jogo bastante perigoso") que tem «pertinência analítica» e há «desvios» todavia «passageiros e sem importância». Já António Osório «situa-se no lado oposto.» A quê? Aos «dispositivos lúdicos» e aos «processos formais que absorvem tudo»? Osório, segundo Guerreiro, celebra. Em poucas linhas temos duas «celebrações». Porquê? Porque «a celebração como fim último da palavra poética é um tema recorrente da tradição poética». Guerreiro é um modelar oficiante de disparates que ele toma por crítica literária. É notório, porém, que não consegue distinguir uma barata de um poema ou um gato de uma palavra. Tudo se passa à superfície. Literalmente.

CONTRA A QUADRATURA DO CÍRCULO

Estreou ontem o programa da foto. Não é um puro momento de papagaios nem de exibições regimentais. Um matemático, um economista e um jurista com formação económica não prometem tagarelice de efeito fácil destinado a "liderar audiências" e em torno do derradeiro arroto do dia. Não são conversas íntimas entre íntimos que se fingem adversariais para garantir o espectáculo. Um plano inclinado não é a mesma coisa que uma quadratura do círculo, uma espécie de prolongamento de reuniões parlamentares entre gente que fala numa linguagem, afinal, única. De outros mais vale guardar silêncio e eles calarem-se. Gosto de alguém que firmemente atire para o caixote do lixo das redacções anos e anos de redacção única. Medina Carreira, por exemplo, dirá sempre a mesma coisa como referem imbecilmente os seus inimigos analfabetos. Mas dizer sempre a mesma coisa quando a coisa é para ser dita e entendida é mérito e não defeito. Cioran dizia que se devia ler um livro para aí umas seis vezes para o "perceber". Daqui a uns dias, quando não se puder andar na rua por causa das horríveis compras de natal, a irresponsabilidade colectiva atingirá o cume. É daí, aliás, que brota aquela tolice - bem reveladora do plano inclinado em que vivemos - que consiste em afirmar-se ser o natal quando um homem quiser. O homem quer, o natal acontece, a sucata cresce, o plano persiste inclinado. Força.

Adenda: As reacções - algumas - que têm chegado a este post são reveladoras. Os espectadores de televisão, tipicamente, acham que tudo se deve resumir a bola. O "modelo" é a bola mesmo que o assunto seja politiquice e achismo. Umas porteiras sofisticadas, em suma. Escusado será dizer que a quadratura do círculo do título não é um programa de televisão. Inclui-o apenas.

7.11.09

TÉDIO E DEFLEXÃO

O país aborrece. O melhor que se consegue é um lapso de escrita que acaba em freudiano no Expresso em papel. Aguiar-Branco, o do hífen, que se supõe uma (mais uma) eminência indispensável ao curso das coisas, quando lhe perguntam acerca de Passos Coelho ficou nos destaques a resposta "é um valor do PS". Que grande deflexão.

ESCRITOS

Chamaram-me a atenção para este texto. Só que é apenas um texto estúpido a pretexto de um debate inoportuno. Parece-se, na estupidez, com os escritos a defender precisamente o contrário.

A PROBLEMÁTICA DO BORDEL

Se escrever bordel sem aspas estou a mencionar um blogue. Se escrever com aspas posso estar a mencionar a Assembleia da República, um partido político ou uma reunião de conhecidos anónimos. É a diferença entre uso e menção.

DO OUTRO


«Eu, talvez por acaso, sempre achei a agressão mais cativante do que o vazio.» Também, mas de uma forma geral. É por isso que aprecio a saga Alien. A problemática do outro, como diria qualquer prestigiado amador de divãs psicanalíticos ou cliente da falecida Casa, é uma coisa tão fascinante como o papel higiénico de um espelho numa casa de banho.

6.11.09

ELOGIO DO PESSIMISMO


«Sócrates transformou a política numa comédia de enganos, que já não engana ninguém; e que as circunstâncias não encorajam a credulidade do cidadão comum. Ainda por cima, não existe maneira de atribuir a longa estagnação da economia portuguesa, o défice do Estado, a dívida externa e o afastamento da "Europa" ao carácter depressivo e malévolo de uns tantos "descontentes". No Restelo, estão agora economistas com números e bastam esses números para justificar as profecias mais lúgubres. Parece que, afinal, os pessimistas tinham razão. Numa semana (e falta ouvir Medina Carreira), Silva Lopes, Ernâni Lopes, Campos e Cunha e Bagão Félix mostraram bem como o desânimo se tornou irreversível. Ernâni Lopes resumiu o sentimento geral. "Esta década", disse ele, "é uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância... (É) uma década de incapacidade na visão estratégica e de fantasia na leitura da realidade económico-financeira... (É uma década de um) permanente esforço exibicionista sem conteúdo e uma expressão sem nobreza... Nunca vi nada assim." Convém lembrar que, nesta década (de facto, quase década e meia), governaram Portugal Guterres, Barroso, Santana e Sócrates. No total, 11 anos de PS, três de PSD. E Sócrates continua.»

Vasco Pulido Valente, Público

Adenda: Mesmo assim, uma sondagem qualquer "reforça" a votação virtual no PS. Uma raça tão estupidamente timorata merece de tudo. E, dentro do tudo, o pior de tudo.

5.11.09

DAS VIRTUDES

Mário Crespo, qual Alice no país das maravilhas, pergunta ao José Adelino Maltez por que é que será que o português não se indigna com coisas como a corrupção. A resposta, para além dos prolegómenos histórico-políticos do José Adelino, é muito simples. O português trivial, justamente para tentar deixar de ser trivial, acaba sempre por invejar alguém que se revela proveitosamente como um chico-esperto. Para além disso, o português trivial, nos intervalos da bola, apercebe-se que a justiça acaba, mais tarde ou mais cedo, por ser complacente com esse chico-esperto. Para que, pois, virtudes?

PARABÉNS

Ao Paulo Portas que desmontou as "novas fronteiras".

AGUENTEM-NAS


Nas semanas que antecederam o "ciclo eleitoral", luminárias comentadeiras como Miguel Sousa Tavares dedicaram-se penhoradamente a zurzir, em artigos e nas televisões, Manuela Ferreira Leite. Há instantes, porém, o mesmo MST explicou com mediana clareza que a mesma Ferreira Leite, afinal, tinha razão depois da sessão das "novas fronteiras" que decorreu hoje na A.R. E teve razão porque fez a pergunta nuclear (que ficou naturalmente sem resposta) sobre o endividamento externo desta choldra irreal. MST e os "seus, "a partir dos respectivos cantinhos opinatórios, fizeram tudo para que as "novas fronteiras" continuassem. Agora aguentem-nas.

MILHAS REPRESENTATIVAS

Isto nem parece seu, Medeiros Ferreira. Então, se a coisa é representativa, as milhas são acumuladas pelos representados ou pelos representantes já que é suposto estes viajarem em nome dos primeiros? Como os representados não podem usufruir da coisa, o melhor mesmo é acabar com ela.

Disclaimer: O que acabei de escrever é descaradamente populista e típico de quem gosta tanto de deputados desta Assembleia da República como de nabos cozidos.

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA

Quando conheci o Tomás Vasques lembro-me de lhe ter dito que não o concebia dissociado do Joãozinho Soares (de quem ele fora chefe de gabinete na Câmara de Lisboa) e que isso era, afinal, um mero preconceito sem sentido. Entretanto verifico que, com o aparentemente incessante "socratismo" em curso (reparem que na cabeça dos socialistas parece que o ciclo eleitoral não acabou e que não sabem viver a não ser em propaganda permanente como numa vulgar sociedade totalitária, afinal, insegura), o Tomás foi perdendo o encanto do seu "tomismo" e adquirindo o pior do "soarismo" júnior onde tudo é invariavelmente muito mau. Se calhar ele já não era este" Tomás sem o Joãozinho". E eu é que não estava a dar por isso.

QUESTÕES DE LINGUAGEM

No sistema áudio do computador ouço o primeiro-ministro, com alguma insistência, a "ir de encontro" a uma série de coisas. Se ele quer dizer o que diz, então prepara-se para chocar com essas coisas. Se não, ele queria dizer que pretendia "ir ao encontro" de coisas ou pessoas e a semântica traiu-o. A "história" dele, porém, fala melhor do que ele fala. Ou, como diria Nabokov, «the pattern of the thing precedes the thing.»

DANÇAS DE SALÃO


Há muito crédulo na "importância" do parlamento nesta legislatura. Imaginam coisas extraordinárias como actos de contrição, "diálogos", "cedências", "influências" ou "cooperação". No fundo, julgam que é possível mudar a natureza do homem ou fazer tábua rasa dela transformando o plenário numa amenidade parecida com o ambiente de um café nos idos do império austro-húngaro. É claro que aqueles - poucos - que lá estão e que foram educados pelos "mestres da suspeita" preparam outras expectativas. Tudo, porém, ficou indelevelmente marcado por aquelas breves reuniões inter-partidárias de sentido único (aquele que Sócrates quis) em São Bento. Casamentos, portanto, só entre same sexers ou doninhas. O governo não se cansará de recordar a tais crédulos que só não estão ali a dançar com ele porque não querem. E quem não dança, pensará num lance brejeiro o actual ministro dos assuntos parlamentares, não mama. Um pouco como a senhora da foto apreciava fazer aos seus convidados. Atirava-os à piscina só pelo prazer de, em seguida, os tirar de lá.

4.11.09

PALAVRAS DO DIA

«Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.» (Lucas 14,25-33)

«PLANO INCLINADO»


Pacheco Pereira - deputado da nação e comentador que costuma cruzar-se, quando anda aos livros no Chiado, com o edil Costa e o secretário de Estado José Magalhães - estreou-se na tvi24. Era uma velha ambição de Constança Cunha e Sá que, para além do sistema planetário e da Sic, o queria como comentador em Queluz nem que fosse para debater astronomia, a gripe hn1, encontros de amigos no Chiado ou folclore transmontano. É por isso que deve saudar-se a estreia, no sábado, de um programa alternativo à estafada "quadratura" (já demasiado "amarretada") das quintas-feiras. Entram Medina Carreira, João Duque e Nuno Crato, três estimulantes criaturas anti-metafísicas e pouco dadas a encontros ensimesmados no Chiado, em Carnaxide ou em Queluz. Modera Mário Crespo que chamou ao programa Plano Inclinado, o outro nome de Portugal.

DA ESCOLHA

Não sou adepto de casamentos seja entre quem for. Julgo (mas isto sou eu a fazer de frívolo) que a sociedade portuguesa teria mais com que se preocupar. Mas, como não tem, merece mais de quinhentos mil desempregados, os grossos milhões com que nos endividamos todos os dias e demais pragas nada metafísicas que, a seu tempo, chegarão. Ocorreram-me as proposições porque vai entrar na "agenda" o casamento entre same sexers. Não perderei uma linha a discutir isto. Julgo que D. José Policarpo já terá combinado o desenrolar não melodramático da coisa (com a acutilância ética com que discutiu o aborto) com o actual primeiro-ministro naquela fase em que Sócrates estava "em exercício". Dito isto, tal como o país, se fosse sério, inscreveria outras coisas na agenda, não me parece que seja de inscrever um referendo para decidir isto. Quando batermos vigorosamente no fundo, casados e solteiros descem por igual ao inferno. De pouco adiantará aos same sexers casar, como disse Medina Carreira, porque não deixarão de passar fomeca. Para além disso ( sou eu a fazer de barato representativista de programa de televisão), contrariamente ao que prometeu para o aborto em 2005, o PS (a entidade que chegou primeiro a 27 de Setembro) não jurou por nenhum referendo agora. Ou seja, quem votou no PS - ou no BE e, pasme-se, até no PC - devia saber que também estava a votar nisto, na possibilidade desta "agenda". O PS e a esquerda dele têm, pois, legitimidade para recusar um referendo e resolver a coisa no quentinho do parlamento. É a vida? É. É a que escolheram.

DEUS LHES PERDOE

Há entre nós uma associação dita ateísta que se regozijou com a circunstância de o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem ter proferido uma deliberação que determina a remoção de crucifixos das escolas italianas. O argumentário dessa deliberação é sensivelmente idêntico ao que, em Bruxelas, fixa tamanhos de pénis e de sardinhas a bem da "normalização" da vida, dos costumes e da sociedade. E revela - da parte do Tribunal e não dessa atrolhada associação indígena - uma profunda ignorância precisamente da história da Europa de que o referido Tribunal emana. Não é concebível uma Europa que tenha vergonha da sua história, da sua tradição e dos seus símbolos e que os esconda em nome de princípios absolutamente vazios como o da igualdade ou o do "direito de todos". Por que não o estabelecimento legal e jurisprudencial de um "direito de todos" à estupidez já em vigor? A "nossa" associação, aliás, deu o mote ao apelar a que se «exerça a vigilância em relação aos abusos que ainda persistem, por incúria, nas escolas e nos hospitais públicos.» "Exercer vigilância" lembra mais Pol Pot e Kim Il Sung do que Europa. Deus lhes perdoe.

DERROTA, PALAVRA PEQUENINA PARA DENOTAR SEJA O QUE FOR


«Lembro-me do tempo em havia futuro e se pensava que à noite se seguia o dia, que uma inteligência oculta e justiceira se encarregaria de dar sentido ao tempo, premiar o valor e condenar e maldade. Tudo isso desapareceu. Ficámos, eu e a minha geração, agarrados a teorias sem ponto de aplicação, à ideia de um Portugal com glória e luz de que todos, afinal, se riem, a um comedimento inibidor - chamar-lhe-ia uma discreta elegância - que a geração que nos precedeu tomou por cobardia e que a geração que nos sucedeu interpreta como quixotismo. Assusta-me a possibilidade que tanta devastação e tanto trepadorismo alvar tenham mudado o meu país ao ponto do não regresso, que estamos condenados, eu e a minha geração, a imaginar um Portugal que já não existe e viver cercados por gente que já não fala a nossa língua. A minha geração não produziu ninguém que se impusesse. Os da nossa idade [mas não os da nossa geração] que ganharam as palmas não passam de factotums e habilidosos dispostos a todas as curvaturas de espinha, a toda a sorte de cumplicidades e golpes. É ver-lhes a insegurança nos olhos, o falar postiço, as frases vazias, a chuva de valores num deserto de convicções. É sentir-lhes inautenticidade na importância com que falam de carreiras sem currículo, de prosápia que não sabe compor e assinar por baixo um texto. É vê-los, de faca em riste, barricados nas suas sinecuras que todos pagamos, aterrorizados com a ideia que alguém um dia os venha desalojar.»

Miguel Castelo-Branco, Combustões

O ABANDONO DA LINGUAGEM

«Embora só seja enganado quem quer, em Portugal nada é transparente e os media preferem apascentar a audiência, tomar por estúpido, ao mesmo tempo que servem a Opinião sob a capa da «exigência». A pluralidade da democracia portuguesa está cada vez mais singular. E o que mais espanta é que tudo decorre sob a normalidade mais doentia, como se alguém abandonasse a «excentricidade» do comportamento passado e finalmente encarrilasse. Os novos entronizados alinham pela necessidade do bom comportamento, que é um abandono da linguagem, e acorrentam-se à «gestão das percepções» que é a melhor forma de se policiar e não ser inconveniente. Boa sorte para os bons rapazes.»

Esse bandido

UMA IDEIA DA EUROPA


Decorreu ontem uma pequenina acção tão jubilatória como provinciana, exibida nas televisões, destinada à congratulação inteiramente privada acerca da assinatura que um homem colocou num tratado. O homem é o presidente checoslovaco, um dos poucos políticos em funções com os pés assentes na terra. A constituição europeia - e a sua nomenclatura - está agora em condições de entrar em vigor. É uma derrota para quem gosta de uma ideia cosmopolita e livre da Europa e não de uma Europa sem ideias vergada à burocracia política e à mera contabilidade dos lugares. O livrinho do Steiner sobre a primeira é mais útil à cabeça de um europeu do que o calhamaço que leva o nome, tão desgraçado nestes tempos, de Lisboa. Que lhes faça proveito.

3.11.09

VANTAGENS


Fiquei logo mais bem disposto.

CLAUDE LÉVI-STRAUSS (1908-2009)


«Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei, tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu.» Tinha toda a razão e não é necessário mais derrames de palavras inúteis.

UM SENTIDO

Armando Vara mostrou sentido de qualquer coisa ao suspender-se das funções que desempenha na gestão de um banco privado. Percebeu, pelo menos, que não basta chegar lá.

UM FUTURO MAIS ALÉM


Venho de uma conferência de Medina Carreira. Já sei. É apocalíptico, uma língua de prata, um tremendista, um profeta do pior, etc., etc. Todavia, ainda não vi nenhum optimista salvar um país ou um povo. Pelo contrário, sempre levaram tudo alegremente para o fundo quando mandaram. Agora agravou-se porque, por aqui, estamos mais pobres, endividados, analfabetos e amorais. Estava na primeira fila - onde chegou convenientemente atrasado - Passos Coelho*. Proferiu, quando abriu a boca e como lhe competia, trivialidades. Henrique Neto, na assistência, explicou-o. Seria a pior coisa que podia acontecer ao PSD eleger semelhante criatura para presidir à coisa. As palmas valeram por mil palavras.

*«O que é o 'passismo' para além do Passos? Seis assessores à procura de um emprego; a redação do DN; umas quantas figuras de terceiro plano do partido; o enorme castor Ângelo Correia?»

2.11.09

A FALÁCIA



Na nova temporada House - segundo episódio -, o homem evita o Vicodin aprendendo a cozinhar e a fazer diagnósticos através da internet a troco de 25 mil dólares. É a velha ideia da substituição. Ou a de Nietzsche, aparentemente mais sofisticada, de que só existe felicidade pelo esquecimento. E quando não se quer substituir nem esquecer?

O VICE-VERSA DA PÊRA


Ser especialista em pêras marinadas equivale, hoje em dia, a ser especialista em "programas de governo" pronto-a-servir e vice-versa. O país tagarela está perigosamente atrevido. Quer dizer, alarve.

VÃO VER

O sr. Lacão - um emérito militante do PS que levou recentemente um pontapé para cima na sua brilhante carreira - entregou ao dr. Gama (que, no íntimo, o deve desprezar) um dossiê chamado "programa do governo". Segundo Lacão e Pereira, o dossiê corresponde a outra coisa apelidada de "compromisso eleitoral" do dito PS. Ninguém evidentemente lerá uma linha. Porquê? Porque o único programa deste governo é dizer aos outros partidos, na AR, que não quiseram governar com o PS, logo não têm legitimidade para criticar o dossiê. Foi só para isso que serviram aquelas imbecis reuniões que antecederam a actual "situação". Estar lá, no dossiê, nada ou parágrafos fátuos vai dar ao mesmo. Vão ver.

"ALTO NÍVEL" OU O PAÍS DE EVENTOS

Dizem que o sr. Godinho - o industrial da sucata que começou a ganhar dinheiro com aquele evento e desígnio nacional conhecido por Expo 98 - mantém uma "rede" com contactos de "alto nível". Queriam dizer baixo nível, naturalmente. Onde é que nesta piolheira há sombra de "alto nível"?