20.7.09

COLIGAÇÃO COM OS LISBOETAS

NADA A ACRESCENTAR

Isto vai ser penoso até Setembro. A quem comprar um carro eléctrico, ele "oferece" cinco mil euros. Ainda acaba nas tele-vendas de valor acrescentado. É o que dá quando já não há mais nada a acrescentar.

IDIOTEX

Uma das coisas a que me custa assistir é ver gente que estimo no papel de idiotas úteis. Lembram-me uma frase de Millor Fernandes. Mais vale passar por parvo estando calado do que abrir a boca e acabar com as dúvidas. Sobretudo quando não são, de todo, parvos.

AS COSTAS DE DA MOTA

O procurador da Mota queria correr com o seu inquiridor e, simultaneamente, queria que o processo disciplinar fosse tornado público. O conselho superior do MP chumbou, por unanimidade, a pretensão do velho amigo de Fátima Felgueiras. Da Mota pretendia dar ordens ao PGR. Sente as costas quentes. A culpa não é dele. É de quem lhe passou a mão por elas.

O MEU BANCO É DIFERENTE DO TEU


O actual presidente do BPP, Adão da Fonseca, escolhido pelo Banco do dr. Constâncio depois do desastre Rendeiro, queria (muito legitimamente) ir embora. Adão da Fonseca - e eu meço bem as palavras - é um homem sério. Se, no comunicado que enviou aos trabalhadores do banco, fala em insolvência do FEI (leia-se, falência do banco) e em "guerra civil" no sistema financeiro, é porque sabe do que é que está a falar. O governo e o dr. Constâncio - que "combinaram" com os grandes accionistas do banco, gente do regime, "aguentar" a coisa - sacudiram a água do capote. A dois meses de eleições, a última coisa que interessa trazer à colação é o BPP. O BPN, esse, está sempre presente através de "ex-ministros de Cavaco". Um, ignora-se depois das melhores atenções. O outro, nacionaliza-se. Nada acontece (ou não acontece) por acaso. Esta gente, para além de manhosa, é mesmo perigosa.

Foto: O banco da mais famosa passagem do tempo por ele.

A PALAVRA

«O negócio dos contentores de Alcântara, feito entre o Estado e o grupo Mota-Engil, seria um escândalo de dimensões nacionais em qualquer lugar do planeta com alguma vergonha na cara. Mas aqui, neste sítio pobre, deprimido, manhoso, cheio de larápios e cada vez mais mal frequentado, a coisa passa com umas tantas notícias, umas tantas declarações piedosas e uma idas à praia em tempo de Verão. A verdade é que a história cheirou mal desde o início. E não era só pelo facto de os indígenas ficarem separados do rio Tejo por uma barreira de contentores. Era desde logo pelo facto de um grupo privado ver uma concessão prorrogada por mais 27 anos, sem concurso público, e com cláusulas altamente lesivas para os cofres do Estado. É evidente também que a coisa da vista serviu para esconder os milhões de estavam em jogo, como o Tribunal de Contas do insuspeito socialista Oliveira Martins fez saber sem margens para dúvidas. O negócio é uma escandaleira imensa e só beneficia o grupo Mota-Engil. É evidente também que a sempre atenta Maria José Morgado fez saber logo que a coisa estava debaixo de olho e que o Ministério Público estava a preparar uma investigação. Outra coisa extraordinária quando um Tribunal de Contas vem dizer que o negócio em causa é, de facto, uma roubalheira dos dinheiros dos contribuintes e dá o nome aos bois. É claro que no meio desta desbunda socialista ninguém se lembrou de que este escândalo obrigava o ministro Lino a sair do Governo do senhor presidente do Conselho a alta velocidade. Mas não. Neste sítio um ministro pode ir para a rua por um par de cornos infantis ou por uma piada de mau gosto. As roubalheiras, os negócios escuros, os compadrios, a corrupção a céu aberto e o tráfico de influências, não só são tolerados como premiados nas urnas. É por isso que, mais do que nunca, era importante uma palavra de Cavaco Silva.»

António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã

OS IRMÃOS SOCRATOV


Enquanto o comentário e a opinião oficiosos vão para férias - que saudades do verão de 1978 em que a política não foi de férias por causa do primeiro governo dito de iniciativa presidencial (Nobre da Costa) depois da remoção de Soares II - esta rapaziada PS e PS friendly não vai. É uma espécie de "clac" nacional-blogosférica alargada a assessores do governo e às respectivas agências de comunicação, colectivas ou individuais, que quer repetir o PS de Sócrates em Setembro. Les beaux esprits se rencontrent.

Adenda da noite (do mundo): Kim-Jong-Il certamente não desdenharia subscrever esta pérola da intelligentsia que venera o admirável líder e os seus sequazes espalhados um pouco por toda a parte. «O Partido Socialista tem soluções, que podem não ser perfeitas, mas visam o bem-público e o interesse colectivo.» Com certeza. Têm sido, aliás, quatro anos de "bem-público" e de "interesse colectivo". Não estará na hora da intelligentsia ir para as "novas oportunidades" e aprender qualquer coisinha em meia-hora?

19.7.09

AO LARGO


Como é que um tipo destes - que remete para a "filosofia do festival", para "um espectáculo que não era para aquele espaço nem para aquele público” - pode "presidir" ao único teatro de ópera nacional? É com atitudes tolas e analfabetas como esta que querem "novos públicos" seja lá o que for isso dos "novos públicos"? Não há meio de os porem ao largo.
Adenda: (da leitora Vera Porto)
«É grave que este Festival, que até apresentou um coro infantil absolutamente desafinado, se permita insultar publicamente no espectáculo de 6ª-feira, dia 17, (programado por Diogo Infante), Ricardo Pais, ex-director do Teatro S. João, pela voz de Produções Fictícias (amigos do actual Min. da Cultura) e do actor Miguel Guilherme. Foi lido um Manifesto anti-Pais a partir do Manifesto anti-Dantas, de Almada Negreiros, substituindo o nome de Júlio Dantas, pelo de Ricardo Pais. Primeiro é um atentado ao texto de Almada. Segundo, como podem as instituições de Estado que promovem o Festival (S. Carlos e D. Maria II), apontarem o dedo e insultarem aquele que foi até recentemente director dum outro Teatro Nacional? »

DOIS "LIBERAIS" TRISTES


Agostinho era um pessimista relativamente à natureza humana. Ratzinger também desconfia dela, como lhe compete. Para mim, essa linha separadora - entre o optimismo e o pessimismo - é intelectualmente mais estimulante do que as tretas esquerda/direita ou liberal/mais ou menos Estado. É a que vale, embora Alain tenha escrito que quem pensa assim é de direita. Não faz mal. O Henrique Raposo define-se no livro da foto como um "liberal triste". Ainda tem a ilusão de que, um dia, esta pátria será "liberal". Isso é bom enquanto utopia e aí nos afastamos. De resto, um "liberal triste" como o Henrique está a meio caminho entre o optimismo e o pessimismo. Caso contrário, confundir-se-ia com alguns liberais de opereta, cúmplices do regime e do "sistema", que se vendem por um prato de lentilhas e que sobrevivem, contentinhos, atascados na sua pobre retórica livresca julgando que vivem onde verdadeiramente não vivem. Em certo sentido, o Henrique está mais do meu lado do que ele imagina. Porque a cidade dos homens não faz qualquer sentido se não for, também, cidade de Deus. É um pouco como a fé que se dirige exclusivamente à razão humana mesmo que esta a rejeite, como tu. Levei anos, uns porventura perdidos (a maioria), outros porventura ganhos na cidade dos homens até aprender isso. Lá chegarás se tiveres de chegar. Queres mais "liberal", e triste, do que isto?

Adenda: O José Medeiros Ferreira é meu amigo. Sem homens como o Medeiros - um "velho senhor da esquerda", como escreves, mas certamente mais jovem de espírito do que muitos ditos de direita precocemente envelhecidos - não haveria tantos furiosos liberais em Portugal no ano da graça de 2009. Devemos-lhe (desde a Europa quando muitos dos "liberais" de hoje a negavam a outras coisas) isso.

O AMIGO DE PENICHE


O beto belfo por ele mesmo. Aqui. Nos únicos momentos aproveitáveis, reconhece que não é um upgrade de Vitalino e que Mário Soares "não faz mossas". O resto é propaganda reles e aquela tremenda relação difícil com a verdade. Aí, o admirável líder, como se viu ontem a propósito da pobreza, é inultrapassável.

O REI MAGO

Ia citá-lo, António, juro. Mas depois tropecei no primeiro parágrafo, nos elogios ao improvável presidente do Tribunal de Contas e ao seu ainda mais improvável "conselho para a prevenção da corrupção" (uma invenção do PS "socrático" para não se fazer nada) e nas seguintes frases. «Os corruptos que se cuidem: estão sob observação. E o “observador” não é daqueles que se deixa facilmente convencer por argumentos de afinidade. Sabe-se, por exemplo, que se interessou recentemente pelo terminal de contentores, o que bastou para criar enorme expectativa.» E nisto.«A corrupção é legal e tem apoio partidário e parlamentar. Por isso, há que «liquidar a maior parte das seis ou sete dezenas de Observatórios que existem na Administração Pública. Observatórios de tudo e nada, que se resumem a organizações de livre recrutamento dos amigos e fiéis e a casulos onde crescem fios e redes de interesses. Ao mesmo tempo, limitar drasticamente o número de assessores, adjuntos, consultores e conselheiros que cada gabinete governamental pode recrutar. Hoje, além dos quadros legais, são uns milhares deles, sem contar as empresas e as agências “subcontratadas”. São os locais ideais de reunião das células partidárias de cada ministério. São estas as fábricas de propaganda, eventos e inaugurações. São os alfobres das políticas de destruição dos adversários e de criação de factos políticos. São os viveiros dos futuros directores-gerais e quadros dos partidos. São os laboratórios de produção de interesses, de satisfação de pretensões e de invenção de intrigas. Aqui, a corrupção é lícita, avençada e remunerada a recibo verde. Aqui se faz o que a lei proíbe aos serviços de fazer.» Com a sua lucidez e com o seu realismo, o António ainda acredita no Pai Natal?

O FIM DO MUNDO


Independentemente da causa a dor é apenas isto :«chaque fois unique, la fin du monde.» (Jacques Derrida). Ou Tracy Letts, em August: Osage County: «acabou o mundo».

AS RAZÕES DO SR. OLIM


«Por razões anatómicas, os homens estão mais expostos a doenças graves que possam ser transmitidas» e vai daí o sr. Olim, presidente do Instituto Português de Sangue e autor desta sublime conclusão, deduziu que os homossexuais masculinos não podem dar sangue. Haja uma alma caridosa (ou melhor, duas) que leve o sr. Olim até um quarto (de preferência escuro) e lhe explique que "as razões anatómicas" nada têm a ver com "exposições" a isto ou aquilo e vice-versa. E outra que o retire imediatamente da chefia de um organismo pago por todos nós para nos servir. Por razões de higiene mental.

CONTRA OS FALSOS PROFETAS

Em jeito de resposta à leviandade de Henrique Raposo, estas palavras serenas de José Medeiros Ferreira, insuspeito de frequentar (algumas) missas.

«Sou um antidogmático empedernido mas sigo este Papa com curiosidade intelectual crescente. Ora, Bento XVI acaba de publicar a encíclica ‘Caritas in Veritas’, e só o título me apaixona. Detesto cada vez mais os que fazem do saber um instrumento de domínio sobre o seu semelhante, e a carta papal começa exactamente por aí: "Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida." Assim a verdade há-de ser encontrada e usada num contexto de diálogo e comunhão com os demais. Porém: "Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo." Bento XVI está preocupado com a actual fase da globalização, na qual falta a justiça, e alerta contra os falsos profetas, já que "a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados"; e quantos não se apresentam na vida pública insinuando que têm soluções técnicas com essa origem.»

18.7.09

DA LEVIANDADE


Só costumo discutir Joseph Ratzinger com quem já o leu. E em Portugal pouca gente o fez. O Henrique Raposo, munido do seu olhómetro "liberal", passou a vista pela última encíclica do Papa. Duas vezes, no Expresso. Respondeu-lhe o padre/poeta sistémico Tolentino Mendonça. Não leio Mendonça mas leio Raposo. Sucede que Raposo - que considero um soi disant liberal legível apesar de beber da "Espada& Cia. académica", esta, sim, de difícil trago - foi, como confessa, leviano. Diz ele (presumo que a sério o que torna o caso mais sério) que «não estava a analisar o Papa ; eu estava a gozar com o Papa», como se fosse o Alfredo Barroso ou o Daniel Oliveira, dois colegas dele, "liberais" de esquerda. E não, Henrique, não existe a menor confusão entre a Doutrina Social da Igreja e o esquerdismo marxista no que respeita à globalização. Como não és católico, não és obrigado a saber o que significa a caritas dos Evangelhos, das Cartas e das Encíclicas. Mas como és alfabetizado, tinhas obrigação de interpretar. Ora o Papa fala-nos da caritas in veritate nas relações económicas, sociais ou laborais, domésticas ou internacionais, financeiras ou outras. E parte da democracia, a nossa, a ocidental e cristã - vem lá na Encíclica - como "base" para desenvolver o seu pensamento acerca da globalização. Que eu saiba, Kim-Jong-Il, Chávez, ou mesmo Putin ou Hu Jintao, apesar de andarem com o credo do mercado na boca (outros "liberais") não só não são muito dados à "caritas na verdade" como não são propriamente uns adeptos da "nossa" democracia. A globalização de que fala o Papa é, por isso, inconfundível com a dos marxistas em exercício ou meramente teóricos. Depois o Papa não responde pelas diatribes de certos padres, mesmo que sejam cardeais. João Paulo II e Bento XVI são inequívocos sobre tonterias como, por exemplo, a "teologia da libertação". Defender a redistribuição da riqueza, a limitação da pobreza, sustentar a intervenção do Estado junto de uma falaciosa sociedade civil "empreendedora" que parasita o mesmo Estado e os contribuintes é estar com Louçã e Sousa Santos, Henrique? Por que não com Portas, o Paulo? Ou com o senhor engenheiro Van Zeller? Ou com esse monstro do "empreendedorismo" nacional que é o sr. Carrapatoso e o seu patético "compromisso" da mão estendida à complacência estatal? Não foi o Papa (e este, muito especialmente) que não deixou entrar a realidade na sua cabeça. És tu, Henrique, e muitos liberalóides ratitos de biblioteca quem, muitas vezes, detém a realidade à porta da "teoria". Mais de dois mil anos de "terreno" é uma patine insubstituível. E como ensina Ratzinger, há tantos caminhos para Deus quanto há homens. Mesmo levianos como tu.

LISBOA, COSTA E O ACORDO COLIGATÓRIO QUE DEIXOU OS LISBOETAS DE FORA


«Ao falarem, como falaram, de lugares, de listas, de números uns e números dois, de vice-presidências, de lugares elegíveis, sem fazerem a mínima alusão a causas e objectivos de programa, revelaram aquilo que os preocupa: tudo fazerem para manter o poder, sem se dedicarem aos aspectos que poderiam implicar mudanças nas condições de vida dos Lisboetas. Num caso, fez-se uma cerimónia num miradouro com uma associação recentemente criada, para o efeito, por um Vereador e, noutro, o actual Presidente e uma Vereadora foram assinar um texto a uma sala de Hotel, depois de reuniões com umas poucas de «bases» nos gabinetes da própria Câmara. Disseram, então, para quem seria o número um da lista, quem ficaria com o segundo lugar e quem poderia ser Vice - Presidente… Sendo assuntos tão sérios, nem se pode acreditar no que parecia, algo como palavras de crianças a brincarem com assuntos de adultos.»

Pedro Santana Lopes, Lisboa com sentido

A TENTAÇÃO DE PORTAS

«Não é proibindo sondagens durante as campanhas eleitorais, como propôs infantil e perigosamente o CDS-PP, que se resolve o problema.»

Eduardo Cintra Torres, Público

UM PEDIDO (SATISFEITO) SOBRE O SÃO CARLOS



Ao Diogo Vasconcelos, de Londres e de sempre, a Manuel Matos, de Coimbra, e a Carlos Pereira da Cruz os meus agradecimentos pelo artigo sobre o São Carlos, a temporada e o sr. Christoph Dammann, o seu funesto director-artístico. Desta vez Jorge Calado acerta até pelas comparações oportunas que faz. Dammann é das piores coisas que caíram em cima do nosso único teatro lírico onde o verdadeiro director continua a ser Mário Vieira de Carvalho. Pinto Ribeiro afirmou não concordar com a gestão em curso - a OPART - mas não mexeu uma palha. Estão todos bem uns para outros. Todavia, o público e os contribuintes é que não devem suportar tanta esperteza saloia sob a capa de um cosmopolitismo de paróquia. Como escreve Calado no Expresso, «registe-se que a Vlaamse Opera (a segunda casa de ópera belga) tem nove [produções contra seis por ano no S. Carlos], a Netherlands Opera tem 15 e a Ópera Nacional Finlandesa tem 14. Todas nações pequenas, sem grandes tradições operáticas [contrariamente ao Teatro de Lisboa] (...) que já foi de Gigli, Mödl, Kraus, Gorr, Schöffler, Resnik, Zampieri e Theodossiou.» Mais. «O que Christoph Dammann, director artístico do teatro, tem feito desde a sua conturbada nomeação é, a vários títulos, desastroso. Com as excepções que só confirmam a regra, as escolhas de repertório, de produções, elencos e maestros revelam uma gritante incompetência, reconhecida à esquerda e à direita (...). Dammann esconde-se atrás de uma pseudolealdade para com os artistas que convida, mesmo maus. A lealdade primeira deveria ser para com o público português que lhe paga (...). O problema, meus senhores, não é a falta de estrelas e de cantores caros. O problema são os maus cantores, os maestros desadequados, os encenadores patetas, o pouco respeito pelo público (...). O Estúdio de Ópera é menos um laboratório de pesquisa e formação e mais um truque para fazer mais e baratinho (três títulos entre Novembro/Dezembro) (...). O Opart e a actual direcção do São Carlos desfazem-se em estatísticas para provar a bondade das mudanças. Para eles, a ópera são números, não são pessoas.»

Clip: Verdi, Macbeth.Mara Zampieri, Ópera de Berlim, Giuseppe Sinopoli. 1987

O BEATO SALVADOR


Passos Coelho, no seu jornal oficioso, volta a repetir aquela luminosa "ideia" de que o PSD está obrigado a ganhar as legislativas. E com maioria absoluta. Porquê? Porque o nosso eterno jovem «tem uma maneira de ver o PSD», «tem um projecto que podia caracterizar como de mobilização e de prosperidade relativamente ao futuro do país», «e se houver no futuro necessidade de as voltar a protagonizar ao nível do PSD», não está «diminuído na possibilidade de (se) voltar a candidatar a presidente do PSD.» Não se esqueçam, pois, de dar um lugarzinho nas listas a mais este candidato a beato salvador. Depois queixem-se.

Adenda: «Como é que alguém que acha que está tudo mal na direcção do seu partido e na sua política pode fazer uma campanha de boa fé por essa direcção e essa política que vai a votos? Ainda mais quando o seu próprio lugar vai estar assegurado não pelo seu mérito individual, mas por uma escolha intra-partidária, à boleia de uma política com que não se concorda. Seria bom acabar nos partidos com as ideias de “carreira” em que todos os pretextos são bons para se ser deputado ou voltar a ser deputado, mais pelo cargo do que pelas políticas, muitas vezes com reserva mental sobre os cenários pós-eleitorais e não sobre o mérito do combate eleitoral em si mesmo. Mais uma vez é o lugar e o emprego que contam e não a política.»

O PONTO G

Para fingir que combate a corrupção, o PS inventou uma coisa apelidada de "conselho de prevenção da corrupção" composto por criaturas estimáveis e inofensivas. O "teórico" destas matérias, João Cravinho, que "combate" a dita a partir do BERD, em Londres, e em meia dúzia de entrevistas que debita periodicamente ao país, acha que não chega e que é preciso ir "ao ponto essencial" da corrupção, a sua dimensão política. Seguramente Cravinho não está à espera que um "conselho" de amáveis burocratas atinja o "ponto G" da corrupção, pois não?

A FALA SILENCIOSA DOS INTELECTUAIS


Pede-me um leitor que dedique mais tempo a temas culturais. Talvez para poder ser mais "consensual". Esforço-me. Juro que me esforço como Diógenes encadeado na rua pela luz do sol mas sempre com a lanterna ligada. Sucede que aparecem coisas como este "manifesto" (os "manifestos", agora, deram em ser desenrolados como papel higiénico) de "intelectuais" PS friendly. Tiveram quatro anos para "levantar" estas questões profundas e graves para o futuro da pátria. Ainda por cima tiveram uma maioria absoluta para as "resolver". Percebe, leitor conciliador, por que é que não vale a pena?

UM BELO SONHO

Leio que, em nome do céu nocturno e do brilho das estrelas, Portugal se apaga. Que belo sonho.

AUGUST:OSAGE COUNTY


Agosto em Osage. Três horas de grande teatro. Um texto soberbo de Tracy Letts (Pulitzer para teatro em 2008) a recordar o melhor Tennessee Williams. Até 2 de Agosto no D. Maria II em Lisboa. Encenação de Fernanda Lapa, cenografia e figurinos de António Lagarto e desenho de luz de Orlando Worm. Com Adriano Luz, Ana Margarida Pereira, Filomena Cautela, Isabel Medina, João Grosso, José Neves, Lia Gama, Luís Lucas, Manuel Coelho, Margarida Marinho, Marina Albuquerque, Mário Jacques, Paula Mora.

17.7.09

FIGUEIRA - 2


«“Lisboeta militante”, João Gonçalves contesta no entanto “essa mania de só se poder debater o país a partir de Lisboa, e de dois ou três canais de televisão, por duas ou três pessoas que saltitam entre esses canais”. À plateia que marcou presença no Casino Figueira para privar com o conhecido bloguista, João Gonçalves apelou: “Esqueçam o país que vos chega pela televisão… esse é um país «mentido», para utilizar a expressão de um poeta português, e que só existe na cabeça dos políticos… e é dos poucos que têm cabeça”. No blogue, João Gonçalves encontrou o meio de passar o que lhe interessa: “a mensagem”. Avesso a redes sociais como o Facebook, ou a meios de comunicação imediatistas, como o Twitter, o autor rendeu-se à blogosfera, onde – apesar de tudo – a mensagem permanece. “Em Portugal, mais do que mensagem, há muita massagem”, ironizou, crítico da “invasão do futebol”, da “pouca originalidade” dominante e de “uma espécie de língua de pau muito maçadora e absolutamente inútil para a maioria das pessoas”, mas com que estas parecem “viver bem”, a julgar pela “abstenção no último acto eleitoral”, que não acredita que se altere significativamente nos próximos. “Nos últimos quatro anos há como que uma anestesia cívica”, lamentou, afirmando que “o país está num momento paradoxal, e a precisar urgentemente de reflexão”. Dando a cobertura mediática da transferência de Cristiano Ronaldo e a morte de Michael Jackson como exemplos da “infantilização da vida pública nacional, ao fim de 35 anos de democracia”, João Gonçalves não arrisca dizer que o país “estava melhor há 20 e tal anos, porque o decurso do tempo traz coisas boas e más”, mas questiona se as pessoas estão, hoje, “melhor do que em 2005”. E, à pergunta da plateia, sobre como se altera o estado de coisas, João Gonçalves não teve dúvidas: “votando”. Para o autor, o voto “é o que a democracia nos permite” e, “ainda que não goste do regime”, que considera “o regime da contingência” e “nebuloso por natureza”, João Gonçalves não acredita nem em novos partidos nem em plataformas.»

Semanário O Figueirense, 17.7.09 (lembranças para os amigos da Figueira, em especial o Almocreve, e para o Pedro Santana Lopes que sabe porquê)

O RUMO DE SOARES


Ao dr. Soares não bastou a humilhação imposta por uma "dona de casa", em 1999, no Parlamento Europeu. O dr. Soares, consta, chegou a sonhar com a presidência da Comissão Europeia como se pode constatar pelas "cartas" que assinou (com outras eminências socialistas reformadas) contra Barroso antes do acto eleitoral de 7 de Junho. Ou pelo que os seus pobres epígonos domésticos andam para aí a dizer de Barroso. É por isso natural que, depois da derrota dos socialistas, ache que a Europa está sem rumo e, sobretudo, sem um Obama que eventualmente até poderia ser ele. O artigo no hebdomadário espanhol representa apenas a continuação desta ladainha insossa tanto mais quando Barroso anda por aí a explicar a quem interessa explicar que, se for preciso, também sabe ser um Obama e um virtuoso reformador ecológico. Com a vantagem de que lhe dão algum crédito.

COSTA E O SEU CÍRCULO


O meu amigo Medeiros Ferreira, uma vez convidado a comparecer no Jardim de São Pedro de Alcântara aquando do remake do dr. Costa, aderiu de imediato à "frente" montada contra a alegada "fronda" representada por Santana Lopes. Sucede que a "frente" do dr. Costa é mais um círculo de que outra coisa qualquer. Costa, o segundo do partido de Sócrates, precisa distanciar-se, pela esquerda, daquela nebulosa estéril personificada pelo líder. Não é por acaso que Alegre - o verdadeiro autor do "acordo coligatório" com Roseta - já fez saber que aprecia a ideia de mais "acordos coligatórios" quixotescos (do PS com amigos dele, porventura também do PS) pelo país fora. Ou que Costa, na conversa familiar das quintas-feiras à noite na Sic-Notícias, tivesse elogiado tanto a "luta pela liberdade" do PC por causa das diatribes do dr. Jardim. Se razões não houvesse para extirpar da Constituição quaisquer referências ideológicas (porque é disso que se trata e não da "história"), o patético circo "anti-fascista" de fachada montado em torno da recandidatura de Costa a Lisboa bastaria para fornecer uma. Costa esteve politicamente bem na entrevista a Judite de Sousa (o que só releva para efeitos da vida interna do PS e da dele) mas, quanto ao mais, parecia um mero intendente à deriva no meio do caos. Costa tem tanta vocação para presidente de Câmara quanto eu. Lopes é apenas o pretexto. O que o círculo/circo da sua recandidatura pretende frivolamente exibir é a revolta por cinco anos de Sócrates à frente do maior partido dito da esquerda, prestando-se Costa a fazer de Iago do seu "senhor". A jurada (e repetida publicamente até à náusea) amizade ao líder - quando se sabe que em política não há nem gratidão nem amizade - faz parte deste "círculo freudiano" apascentado, no fundo, pelo ressentimento e pela perda de identidade. Para gáudio do PC e do Bloco que aparecem, em Lisboa, sem "complexos". No imaginário destes esperançados desesperados, Costa, o "fiel amigo" dos romances e das peças de teatro, é a derradeira oportunidade para a "redenção". O resto é literatura. E da má.

SAÚDE SEM VIDA


Por causa da gripe, já se fala em banir provisoriamente a comunhão na missa, a água-benta e a saudação entre os participantes. O director-geral da saúde também recomenda que não se deslize mãos e rabo por corrimões, que se evite as caixas multibanco, que se fuja de apoios nos autocarros e no metro, de abrir ou fechar portas ou que (por que não?) não se coma à mesa já que é uma "superfície". Em suma, que se deixe de viver. Da obsessão doentia pela vida saudável - corridinhas, ginásios, andar a pé, não ingerir isto ou aquilo - passámos para a obsessão pela saúde sem vida. Não haverá Júlio de Matos suficientes para internar tanta gente.

16.7.09

PODER INCULTO

Num país recentemente enxameado de "politólogos", repare-se na actualidade destas palavras de Francisco Lucas Pires (este, sim, era a sério) escritas em 1978. «O poder em Portugal tem sido sempre muito mais familiar e muito mais inculto – pelo menos do ponto de vista político – do que é normal.»

DE "LUGAR-COMUM" A "MOTOR DA ECONOMIA"

Francisco José Viegas traz-nos de volta, para além dele mesmo (o que se saúda), o "João Tiago". Sucede que o "João Tiago" é, nem mais, nem menos que o porta-voz do PS. Só é novo em idade porque até consegue ser mais confrangedor do que Vitalino. É este em muito mau o que não deixa de ser um elogio a Canas. Pois o nosso "João Tiago" - o PS do admirável líder - pretende "reforçar o poder de compra" da classe média que considera "o motor da economia". Ora o "João Tiago" não fez o trabalho de casa. Em 2006, numa célebre viagem a Moçambique onde, na prática, deu Cahora Bassa ao senhor Gebuza, Sócrates protagonizou uma reportagem do Público, efectuada no avião. Lá pelo meio pronunciou-se sobre a classe média que, agora, mandou o "João Tiago" venerar a bem do dia 27 de Setembro próximo. O texto está no livro Portugal dos Pequeninos, ali à direita. «A melhor frase produzida por Sócrates é esta e denuncia o inconsciente autoritário do chefe do governo: «O que é isso da classe média, a não ser um lugar-comum?». Pois é, senhor engenheiro. V. Exa. devia saber que foi justamente esse "lugar comum" que lhe deu a vitória nas legislativas e é esse "lugar-comum" que V. Exa. vem metodicamente enterrando enquanto "mestre das escaramuças", como lhe chamou António Barreto. Será, aliás, esse "lugar-comum" que o "enterrará", a si, em devido tempo.» Já faltou mais.

DO INTERESSE PÚBLICO

O Tribunal de Contas declarou "ruinoso" para o Estado - ou seja, para os contribuintes - o famoso "alargamento" (espaço e contrato prorrogado por vinte e sete anos para o "terminal de Alcântara") a favor de uma empresa do "universo" Mota-Engil do engenhoso dr. Jorge Coelho. Concordo com Miguel Sousa Tavares, o comentador político. Se se partir do princípio que o Tribunal de Contas, na pessoa do seu presidente, não é um mero "verbo de encher", o admirável 1º ministro devia demitir imediatamente o simpático eng. º Lino e a sua dupla de secretários de Estado, Campos júnior e a ambiciosa Ana Paula Vitorino. Não estão manifestamente à altura do interesse público que deviam representar.

SEM ISMOS


Ao contrário do dr. Jardim (que introduziu um ruído perfeitamente inútil nesta altura do campeonato não fosse a gente esquecer-se dele...), julgo que a Constituição não deve proibir ideologias. Nem o fascismo, nem o comunismo nem outro "ismo" qualquer. O que na Constituição deve mudar é o sistema político, reforçando-se o papel do PR - isto é, acabar com o semi-parlamentarismo de chanceler em vigor -, o sistema económico (que não precisa de tantas "disposições"), o sistema judicial (onde a única magistratura deveria ser a judicial e onde o PR passasse a nomear o PGR) e o sistema de reservas absolutas e relativas de poderes (que acompanhasse a presidencialização do regime e o inerente poder de convocar referendos). Metade ou menos de metade do presente articulado chegava.

«SOBRETUDO NO PSD»

«Existe um dado com que muitos, sobretudo no PSD, não contaram: Manuela Ferreira Leite parece estar a gostar de ser líder. A septuagenária, como ainda há pouco lhe chamavam, está mais livre que a maior parte dos seus colegas de partido: já fez profissionalmente o que tinha a fazer e, ao fim de todos estes anos na política, não deve temer que lhe vasculhem o passado. Ser líder pode ser não o valiosíssimo serviço que alguns esperavam que lhes prestasse, mas sim o projecto de quem, pessoalmente, não tem nada a perder.»

Helena Matos, Público (via Povo)

PS, O PARTIDO SUPERFÍCIE



«As duas cores e sua arrumação não só indiciam a bandeira nacional como colocam Sócrates no centro da bandeira, no lugar da esfera armilar dourada: Sócrates regressa, pois, neste cartaz como o "menino de ouro" - e não só do PS mas de Portugal.(...) Marcos Perestrello surge só como manequim, ou modelo, ou actor de quem se mostra a cara. O principal "billboard" de Perestrello utiliza um plano de pormenor que nos coloca a uma distância simbólica ínfima do fotografado. O plano de pormenor de caras é raro em cartazes (usa-se muito em telenovelas). (...) Neste campanha Perestrello é o Brad Pitt do PS, o plano de pormenor aproximadíssimo tem a ousadia de o apresentar ainda mais belo que o actor. A superficialidade da política chega aqui à flor da pele.»

Eduardo Cintra Torres, Jornal de Negócios

O FARSANTE NA SUA FANTASIA

Se fosse de esquerda, sentir-me-ia vexado pelas palavras do secretário-geral do PS aos membros da seita de Lisboa. Sócrates acha que ele - e os seus lugar-tenentes como António Costa - representa a esquerda e que deve ser "fortalecido" por causa disso. Apela, sem vergonha, ao voto útil das esquerdas na sua admirável pessoa depois de quatro anos de insultos, de arrogância pueril e de apoucamento. Não percebeu que as esquerdas preferem o original a uma fotocópia de ocasião, meramente oportunista, sem nada por baixo. Sócrates vai pagar - à esquerda e à direita - a factura da farsa que andou a alimentar. Perderá para a esquerda e para a direita. A fantasia que ele representa está, pois, a chegar ao fim. Os militantes da seita que ainda são de esquerda que lhe expliquem porquê.

Adenda: Por falar em fantasia. «O porta-voz do ministério das Finanças [Vítor Constâncio] acabou por se tornar numa figura menor que, neste momento, incomoda já o próprio Governo. Só ele, na sua megalomania, é que ainda não percebeu que é um triste símbolo de um ciclo que terminou.»

KARAJAN



Em tempos sombrios, de pigmeus insignificantes, recordar a grandeza de Herbert von Karajan no vigésimo aniversário da sua morte é um serviço público. Não era, naturalmente, um democrata. Porquê? Porque, como se explica neste notável post, «se há área onde a democracia não funciona é na direcção de uma orquestra; esta toca como um todo, sujeita à orientação de quem a conduz e servindo uma determinada interpretação da obra em causa, e nem poderia ser de outra maneira, sob pena de produzir uma peça híbrida e esteticamente ilegível.» De resto, Karajan permanece como «um dos mais notáveis maestros do século XX, que dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim durante trinta e cinco anos.» Se me permitem, o maior.

Clip: 1º andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven. Berliner Philarmoniker

15.7.09

ILUSÕES PERDIDAS

«Viver na pobreza não quer dizer que sejamos miseráveis; quer, sim, dizer que devemos viver na exacta medida das nossas possibilidades, que devemos premiar o esforço e o trabalho, que devemos ter os melhores a dirigir, que se deve restaurar o princípio da poupança e dos sacrifícios. Viver modestamente não quer dizer que vivamos em penúria, mas que sejamos os primeiros a reconhecer que o tipo de figurino que nos impuseram se transformou na maior causa de frustração para quantos acreditaram poder viver como europeus ricos e ociosos.»

Miguel Castelo-Branco, Combustões

COISA EM FORMA DE COLIGATÓRIO


Como não há possibilidade de um partido se coligar com pessoas, o PS, através do dr. Costa, inventou uma coisa chamada "acordo coligatório" - é mais supositório político do que outra coisa - para meter a arq.ª Roseta no bolso do casaco. Os dois, numa patética conferência de imprensa, mostraram, afinal, uma coligação do PS com ele mesmo, apesar de Roseta insistir com os jornalistas para a tratarem como independente. O que diz tudo sobre Roseta e o seu defunto "movimento de cidadãos". Sucede que quem votou há dois anos em Roseta, votou contra a "lógica" partidária em que a senhora acaba de entrar. Não sei, porém, se os "cidadãos" de Roseta estarão dispostos a ser tomados por parvos. Esta contradição insanável vai sair cara aos dois candidatos. Não somaram nada. Só se diminuíram aos olhos dos lisboetas.

Nota: Roseta está a ser entrevistada na Sic-Notícias, um canal particularmente favorável ao dr. Costa e onde ele desenvolve um part-time semanal. Uma vez que a senhora está em "acordo coligatório", ou seja, diluída no PS, a que título, já que não é candidata à presidência da CML, é que tem direito a isto?

DA MOTA

Para além de se manter em funções no Eurojust, o procurador da Mota também entende que deve mandar no sr. PGR. Da Mota não quer o instrutor do seu processo disciplinar indicado pelo conselho superior da PGR. Levantou o incidente da suspeição, uma manifesta ironia vindo de quem vem. Tudo, como de costume, acabará em bem.

O ÚNICO


Cavaco Silva faz hoje setenta anos. Parabéns duplos. Pelo dia e por ser praticamente o único eleito confiável em exercício de funções.

LÁ ATRÁS


Reparo que o Eduardo Pitta - num arrebatamento narcísico despropositado - confundiu os convivas do Martinho da Arcada com a suposta intelligentsia nacional. Só revela que, trinta e cinco anos depois, não temos elites. Normalmente o que a intelligentsia nacional tem feito, salvo raras excepções, é a figura daqueles cavalheiros da foto. A dos que estão lá atrás.


Adenda: Um dos membros da claque é esse prodígio da intelligentsia nacional que dá pelo nome de Vasco Lourenço. Da última vez que apareceu numa coisa destas, como mandatário do famoso Joãozinho em 2001, conhecem-se os resultados. Um vulto.

AS CONVICÇÕES DE UMA SENTIMENTAL


Há dois anos Helena Roseta prestou um bom serviço à cidadania política. Parecia, finalmente, uma adulta. Não aceitou o diktat do seu ex-partido, o PS do dr. Costa, e avançou, generosa e livre, para Lisboa. Costa, aliás, não a poupou com os mimos típicos da nomenclatura que considera abjectos quaisquer laivos de independência. Viu-se o que fez ao "Zé". Agora, anuncia-se, Roseta está disposta a trocar a diferença que a fez ter votos por lugares. Em concreto, pelo lugar dela como "número 2" na lista de Costa para Lisboa e por um segundo bonzo elegível. Anda, diz, a negociar. Mais valia regressar ao PS do que meter-se nesse albergue espanhol em que se está tornar a recandidatura de Costa. Sempre era mais honesto. E a política não se faz com bons (neste caso péssimos) sentimentos. Afinal não cresceu nem aprendeu nada.

14.7.09

O AUTO DO DR. NUNES

O senhor ASAE, o dr. Nunes (cuja fulgurante carreira na alta administração pública começou com o sr. Vara), depois de uma exposição excessiva por causa de croquetes caseiros e de cigarros nos restaurantes, passou quase à clandestinidade. Sócrates - não Pinho porque esse percebia pouca coisa - percebeu que não convinha exibir demasiado o dr. Nunes e os seu rapazes. Mesmo assim, a ASAE tem poderes de polícia criminal que o Tribunal da Relação de Lisboa, unanimemente, considerou inconstitucionais. E chegou a esta conclusão depois de um processo motivado por uma queixa em torno, vejam lá, de uma "raspadinha" vendida num café. Agora é que o dr. Nunes já não sai do justíssimo anonimato para onde foi remetido. Nem que os seus homens o autuem.

SEGUIR EM FRENTE


Ontem à noite, na televisão onde é comentador, o dr. Costa passou quase uma hora a dizer mal de Pedro Santana Lopes. Só se atrapalhou quando quis enunciar as suas "cinco medidas". Parecia um marrão numa oral de direito. Decorado mas não sabido. Na RTP, Santana Lopes falou aos lisboetas sobre Lisboa. A Lisboa do trânsito caótico, da Praça do Comércio inacessível, vedada, feia. A Lisboa do aeroporto da Portela que o dr. Costa queria transformar num jardim florido. A Lisboa que não quer o IPO fora do centro. A Lisboa que não quer um terminal de contentores em Alcântara. A Lisboa que pretende ver mais prédios recuperados. A Lisboa sem a demagogia das contabilidades enganadoras. A Lisboa que não pode continuar a viver a crédito bancário, uma especialidade (porventura a única) do dr. Costa. Santana Lopes, repito-o, não é perfeito e, felizmente, não conta com o sr. Saramago. Conta com os lisboetas na maior tranquilidade de espírito. Não é recandidato depois de ter sido mero recurso eleito num mar de indiferença. Não se agarra a lugares-comuns mas às pessoas. Não desceu do absolutismo onde preparou uma lei de finanças regionais que lhe rebentou nas mãos. Preparou-se. E está preparado para governar Lisboa sem a massacrar. É só seguir em frente.

FRACA CLAQUE


O que é que pode juntar Eduardo Lourenço, Lídia Jorge, Rui Vieira Nery - soube depois, o "mestre da banda" -, o major Pedroso Marques (o padrasto do interessado ausente), Lídia Franco, Gastão Cruz, Eduardo Pitta, Raul Solnado, Margarida Martins, a ex-Guida Gorda do Frágil-quando-ele-era-vivo, e umas senhoras e uns senhores com ar soixante-huitard e de pochete a tiracolo, num fim de tarde, no Martinho da Arcada? Visto de fora, como eu via juntamente com esta moça prendada com quem tinha combinado uma água com anos de atraso, parecia um remake, em pequenino, de cenas conhecidas de vésperas eleitorais das esquerdas. Quando "homens e mulheres de cultura" se juntam à mesa-sombra de Pessoa, o caso merece atenção. Todavia, era fácil de entender sem perguntar nada. Cada um dos presentes vale, na circunstância, aquilo que os fez sentar juntos. Um voto em António Costa. Nem mais nem menos. Não "o" voto da cultura em Costa - tão maltratada em quatro anos PS de que o eleito dos convivas é o "nº 2" orgulhoso como não se cansa de repetir - mas os votos daquelas almas no incumbente da Praça do Munícipio. Fraca claque.

LINO TERMINAL


O mal que Mário Lino faz ao país enquanto ministro do betão e das comunicações só será devidamente avaliado daqui a alguns anos. Não é por acaso que ele outro dia confessou que já estava "velho" para isto e não vê a hora de desaparecer. Humanamente, não consigo deixar de sentir uma vaga simpatia por ele. No mais, Lino - o homem de uma fundação misteriosa, do Magalhães, das estradas, dos ajustes directos, da trapalhada do terminal de contentores de Alcântara, etc., etc. - apenas serve para comprometer o país (e os contribuintes) em coisas por vir. Nunca devia ter vindo.